O que te levou a criar "My Song By The River" e quando percebeste que este seria o teu álbum de estreia?
A maior parte das músicas do álbum surgiram há 5 anos atrás, numa fase bastante escura da minha vida. Não andava bem e era um pouco difícil explicar aquilo que sentia. As músicas acabaram por ser desabafos no meio de lágrimas. Nessa altura ia criar um EP, cujo nome era para ser exatamente “My Song By The River”, mas por causa dos mesmos problemas e uma crise artística, acabei por nunca continuar com a ideia. Foi em 2024, graças a uma ótima recuperação do meu estado mental e a companhia das pessoas certas, que me relembrei o que queria: música. Mais do que isso, dar voz à minha história, às minhas músicas, agora sem tanta dor mas sim esperança.

O álbum explora temas como trauma, pertença e identidade. Qual foi o maior desafio emocional ao escrever estas músicas?
Honestamente, voltar a sentir o que sentia quando as escrevi. O artista é um sofredor e gosta disso. Gosta de sentir e a dor faz-nos criativos na maior parte das vezes. Quando decidi que queria dar voz à minha voz do passado, deparei-me com um ser (eu) num espaço melhor e mais saudável. Então tive que remoer coisas antigas e voltar a meter-me nos meus sapatos. Lembro-me que em estúdio, quando ia gravar a voz, tinha receio de “não ouvir a mesma dor”. Com isso bebi um copo de vinho branco, desligámos quase todas as luzes e deu para viajar ao passado.
O título carrega uma metáfora forte. O que simboliza esse “rio” para ti?
Tão simples como “a vida”. Como referi, nessa altura eu estava mais para lá do que para cá e a vontade de viver era de todo inexistente. Alias, se me dissessem há 5 anos atrás onde estaria hoje não iria acreditar, pois não acharia possível conseguir vencer a dor que vivia. O titulo do álbum remete à música “my song by the river” que fala exatamente sobre desistir de viver. É todo um poema metafórico sobre suicídio, sobre o ver a vida a passar, eu a musica, a vida o rio.
Há uma ligação clara entre as sete faixas. Foi intencional criar um álbum com narrativa contínua?
Foi sim, quando escrevi as músicas não pensei propriamente nisso, era apenas a minha história no momento. Na altura em que criei o EP tinha todo um conceito que não modificou assim tanto com os anos. O EP acabava com dois singles que foram lançados apenas no YouTube em 2021 (Green Tea e Butterfly Lullaby) e era sobre o começar mal mas acabar bem. Neste caso, com a maturidade que fui ganhando , o álbum era mais uma nostalgia, um perdão a mim mesma e o ciclo da vida, tanto que o álbum começa comigo a cantar com 3 anos e acaba com uma música que escrevi no 100º aniversário do meu avo paterno, antes da morte dele. Quando vi o sentido inconsciente que dei ao álbum foi uma sensação de paz e de puro descanso.
A tua música tem uma atmosfera muito íntima. Como descreves o teu estilo a quem te ouve pela primeira vez?
Ui isso é uma pergunta bastante complexa. Nem eu sei, a verdade é que sempre tive muita ligação com o rock, tal como o pop. Tenho pais de gerações diferentes, o meu pai dos anos 50s e a minha mãe dos anos 70s, então o meu leque de músicas sempre foi bastante amplo. Desde o meu pai que me mostrou os clássicos do Blues ao Rock e a minha mãe que me deu um gosto não só pelo Pop como pelo Metal. Tenho-me posto numa caixinha de Pop Rock Alternativo, pois acabei por ver-me mais nesse estilo, mas não quero de todo detalhar linhas daquilo que é a minha música pois não sei bem o dia de amanha.
De que forma a tua origem ibérica influencia a tua identidade artística?
O não estar tão agarrada a ser algo a 100%, não sei bem explicar mas quando se nasce com “duas identidades” é como se estivéssemos numa constante questão de quem sou e o que é ou não verdade. Com isso, vi-me como alguém que é mente aberta a tudo e acho que parte muito de aí.
Como costumas compor? Tens um processo definido ou depende do momento?
Depende muito do momento, mas como o meu instrumento principal é a voz, muitas vezes é a cantarolar, ou surge-me uma letra com uma certa melodia e gravo no meu telemóvel. Outras, foram com a guitarra ou o piano, estava a praticar, a descobrir novas melodias e do nada algo surgia. A verdade é que em nenhuma destas músicas obriguei-me a escrever, apenas surgiram. Parecia que algo saia de mim, que precisava mesmo de ter cá fora. Foi raro a vez que após isso mudei a melodia ou a letra.
No dia do lançamento deste álbum apresentaste-o num concerto acústico no Limas Bar. Como reagiu o público a este novo trabalho?
Gostaram bastante! Foi uma ótima noite, apareceu imensa gente e via um ambiente muito radiante à volta. Saí com o peito cheio de amor e vi que todos estavam com um sorriso na cara. Foi um concerto mais intimo, apenas com voz, guitarra (Daniel Chen) e uma pequena bateria (Vasco Lopes). Foi bastante divertido.

Que emoções queres despertar em quem ouve estas músicas pela primeira vez?
Sem duvida que é o conforto. Há uma frase que às vezes comentavam comigo quando estava mal que era “mas eu não me posso queixar porque tu estás numa situação pior”. Nunca acreditei nisso, eu estou mal e estou a passar pelo que tenho que passar inevitavelmente, isso não significa que os outros não tenham as suas dores. Por mais que o álbum seja muito sobre o meu “eu eu eu”, quero que as pessoas a interpretem como se fosse delas, a música é delas, é a oportunidade delas de desabafar. Sinto isso na musica “(the) People”. Ouçam a música deitados na cama, com umas luzes de presença pouco invasivas, deixem-se entrar pelos pads a dentro e descobrir a sensação agridoce que é estarmos sozinhos. Eu escrevi essa música com um vazio enorme, mas sempre que a ouço penso “fogo, mas estava ali comigo” e é uma sensação que quero que as pessoas sintam. O conforto na solidão, nas dores delas e, caramba, na força que temos todos dentro de nós.
O próximo concerto será na ARC em Faro. O que podes desvendar sobre esta data? Haverá alguma surpresa para o público?
Estou bastante feliz!! Para já porque manifestei três concertos em banda antes do final do ano e consegui, já por aí vai ser um concerto muito feliz. Mas posso desvendar que, para além de cantarmos o álbum, vou apresentar uma música nova, nunca antes ouvida por ninguém (sem ser a minha avó que ama essa música e tanto me chateou por torná-la realidade). Será uma versão em acústico, mas vai ser muito bonita.
Com datas já agendadas em Algés e Famalicão, sentes que este álbum está a abrir novas portas?
Espero que sim, não sou a pessoa mais positiva ou otimista na grande parte dos dias ahah (acho que dá para perceber com as 7 músicas tristes que ofereci ao público ahah), mas está me a dar gozo ver que o trabalho que tenho tido para me lançar e dar-me a conhecer está de facto a dar pequenos frutos. Muitas vezes tenho receio de não ser ninguém, por mais que tente, mas a verdade é que se for ver como estava e onde estou, não posso negar que as sementes estão a dar alguns frutos.
Já pensas no futuro ou preferes viver este ciclo antes de criar o próximo capítulo?
Sou pro a pensar no que aí vem e tenho muitos problemas em viver no presente. Portanto após alguma terapia consigo dizer: nos dois ahah... aproveito este álbum que, no fundo, é um álbum cheio de nostalgia e uma memória do que fui, mas já tenho ideias para o que quero trazer no futuro, nem que seja uma vaga ideia.
28-11-2025