Zé Rui, "Madrugar em Gaza" é uma das canções mais duras e emotivas dos Dixit dos últimos anos. Em que momento sentiste que era necessário transformar esta realidade numa canção?
Sempre fez parte do nosso ADN escrever sobre o que importa e denunciar a falta de humanidade que ainda existe neste planeta. Para nós, é sempre urgente dar voz a aquilo que não tem lugar numa sociedade que devia ser mais justa e humana.
A personagem Samir representa milhares de crianças apanhadas no meio da guerra. Como construíste esta narrativa e que importância teve dar um rosto humano a uma tragédia tantas vezes reduzida a números?
Esta é uma história bem real. Infelizmente, milhares de crianças vivem esta realidade, seja em Gaza ou em tantos outros locais do mundo. O Samir representa todas essas crianças a quem a infância é roubada.
A letra fala da perda da infância, dos sonhos e da esperança. Consideras que esse é o verdadeiro rosto de qualquer conflito armado, independentemente da geografia ou da ideologia envolvida?
Neste momento existem demasiados conflitos no mundo que não respeitam os direitos das crianças. É importante continuar a denunciar, seja no Congo, no Sudão, no Médio Oriente ou em tantos outros territórios devastados pela guerra.
Na divulgação do tema afirmam que "todo o genocídio começa quando se interrompem a vida, a esperança e o futuro das novas gerações". O que gostarias que o público refletisse ao ouvir esta mensagem?
É importante não nos deixarmos levar pela banalização do mal. Devemos lutar pela dignidade destes seres humanos, que tantas vezes são ignorados e deixados à mercê da crueldade.
O videoclipe estreou simbolicamente no Dia Mundial da Criança. Porque era importante associar este lançamento a uma data tão significativa?
Porque estas datas servem para nos lembrar do que realmente importa. Ainda assim, todos os dias são importantes quando falamos da defesa dos direitos de todas as crianças.
Ao longo de mais de três décadas, os Dixit nunca evitaram temas incómodos, desde a saúde mental à violência doméstica, passando pelo racismo e pela demagogia política. Sentem que a música continua a ter força para despertar consciências?
Nunca tivemos receio de abordar os temas que consideramos essenciais. Isso faz parte do espírito do rock: refletir sobre a sociedade e provocar pensamento crítico.
Vivemos numa época em que muitos artistas evitam posicionar-se sobre questões sociais ou políticas. Para ti, qual deve ser o papel de um músico perante as injustiças que testemunha?
Um músico é um arauto da dignidade, da consciência e da liberdade. A arte sempre teve esse papel: refletir a sociedade e defender a condição humana.
Os Dixit sempre colocaram a palavra no centro das canções. Quando escreves sobre temas tão sensíveis, sentes uma responsabilidade acrescida na forma como constróis a mensagem?
Não faz sentido, para nós, escrever sobre temas vazios. Essa foi sempre a génese dos Dixit: deixar uma mensagem em cada canção e transformar a música num espaço de reflexão e sentimento.
Depois de 33 anos de percurso, o que continua a alimentar esta necessidade de intervenção e de denúncia através do rock?
Fazer rock é continuar a lançar pedras no charco, a mover águas e a gritar aquilo que nos vai na alma.
O que esperas que aconteça depois de as pessoas ouvirem "Madrugar em Gaza"? Mais do que uma reação musical, que impacto gostarias que esta canção tivesse junto do público?
Se quem ouvir este tema não ficar indiferente, já atingimos o nosso objetivo. Queremos que esta canção lembre que não podemos ficar em silêncio perante o sofrimento das crianças no mundo.
Num mundo marcado por guerras, polarização e crescente indiferença, é mais difícil ou mais urgente fazer música de intervenção hoje do que quando os Dixit começaram?
A urgência é a mesma. Ao longo das últimas décadas, pouco mudou no que diz respeito aos direitos humanos, sobretudo dos mais inocentes, muitas vezes vítimas de interesses económicos e da propagação do ódio.
Que mensagem gostarias de deixar às crianças que, como o Samir da canção, crescem privadas da segurança, da liberdade e do direito a sonhar?
Gostaríamos de lhes transmitir esperança e a certeza de que ainda há quem lute por elas. Que possam brincar, estudar, ter uma refeição digna e viver em segurança, sem o trauma constante da guerra e da morte.
Lito, este novo álbum representa mais um capítulo no teu percurso musical. Em que momento sentiste que as canções estavam prontas para ganhar forma como disco e o que distingue este trabalho dos anteriores?
Na realidade, não senti que as músicas estivessem completamente finalizadas. O que senti foi que tinha chegado o momento de lhes dar vida. Já as vinha a produzir há bastante tempo e algumas até tinham sido tocadas ao vivo. Estava sempre à procura de mais um detalhe, mais um ajuste, mais uma forma de as aperfeiçoar. Mas chegou uma altura em que percebi que tinha de as deixar seguir o seu próprio caminho.
De certa forma, precisava também de encerrar este ciclo. Apesar de ser um disco novo, estas músicas acompanham-me há vários anos e senti que estava na altura certa de as partilhar com o público.
Este álbum marca um virar de página no meu percurso. Foi aqui que consegui definir melhor a minha direção artística e consolidar uma sonoridade que me representa de forma mais clara. Talvez seja o trabalho onde me sinto mais próximo daquilo que realmente quero expressar como músico.
Quando olhas para o conjunto das músicas que compõem o álbum, existe um tema ou uma mensagem central que une todas as faixas?
Sim. Embora cada música tenha a sua própria identidade, sinto que "Find The Gold", que dá nome ao álbum e é também o single principal, acaba por ser o coração conceptual do disco. Pela energia, pela mensagem e pela forma direta como comunica, resume muito daquilo que quero transmitir neste trabalho.
Vivemos rodeados de ruído, expectativas e distrações. Ao longo da vida vamos criando defesas, máscaras e camadas para nos protegermos, mas muitas vezes acabamos por ficar presos dentro dessas mesmas estruturas. A certa altura percebemos que a maior prisão pode ser aquela que construímos para nós próprios.
"Find The Gold" fala precisamente dessa procura interior. Da necessidade de parar de procurar respostas fora de nós e começar a olhar mais para dentro. De encontrar o nosso próprio ouro, aquilo que nos torna únicos, autênticos e verdadeiros.
No fundo, é uma música sobre força interior, transformação e autenticidade. Sobre ter coragem para enfrentar quem somos, libertar-nos do que não nos serve e confiar mais em nós próprios.
Como diz a letra:
"Dig down deep inside your mind, and deal with yourself.
Be honest, formless, and be shapeless.
Empty your mind and be like water.
An original is worth more than a copy.
Go and find the gold."
O processo de criação de um álbum é sempre uma viagem. Quais foram os maiores desafios e aprendizagens durante a composição e gravação deste trabalho?
Sim, fazer um álbum é sempre uma viagem muito interessante. Sabemos onde começamos, mas raramente sabemos exatamente onde vamos acabar. Para mim, é precisamente esse mistério e essa abertura ao inesperado que tornam o processo tão fascinante.
Olhando para trás, sei que não foi um caminho fácil. Houve muitos desafios, mudanças de direção, decisões estratégicas e momentos em que tive de regravar partes inteiras ou abandonar ideias que, à partida, parecia que iam funcionar. Uma das maiores aprendizagens foi desenvolver flexibilidade e perceber que nem sempre o primeiro plano é o melhor plano.
Também aprendi a gerir a ansiedade. Quando estamos muito envolvidos num projeto, é fácil querer controlar tudo e encontrar respostas imediatas. Mas muitas vezes o processo criativo exige tempo, paciência e confiança.
Se tivesse de resumir este percurso numa imagem, diria que foi como atravessar um deserto. Há momentos em que não vemos claramente o destino e em que tudo à nossa volta parece indicar que estamos no caminho errado. Mesmo com a melhor das intenções, as pessoas que nos rodeiam podem ter opiniões diferentes ou sugerir outras direções. O desafio está em continuar a caminhar, confiar na nossa intuição e mantermo-nos fiéis à visão que temos para o trabalho.
No fundo, a maior aprendizagem foi a adaptação. Encontrar formas de fazer acontecer, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis, inventar caminhos alternativos e seguir em frente sem perder a essência daquilo que quero transmitir. Foi isso que este álbum me ensinou.
Ao longo da tua carreira tens construído uma identidade muito própria dentro do rock português. De que forma sentes que a tua escrita e a tua visão artística evoluíram ao longo dos anos?
Acho que a minha escrita e a minha visão artística têm vindo a evoluir de uma forma muito orgânica, quase inevitável, ao longo dos anos.
Numa fase inicial, tudo era mais instintivo. Havia uma grande necessidade de expressão, de libertar ideias e emoções sem grande filtro. A prioridade era criar e fazer acontecer, mesmo que isso significasse ser mais cru ou menos consciente da forma.
Com o tempo, comecei a ganhar mais consciência do que estava a fazer. Passei a ouvir mais o que as músicas me pediam, a pensar mais na estrutura, na mensagem e no impacto emocional. O caminho para a escrita deixou de ser apenas um impulso e passou também a ser uma forma de reflexão.
Hoje sinto que existe um equilíbrio maior entre instinto e intenção. Continuo a valorizar muito a espontaneidade, mas há também uma maior preocupação com a identidade, com a coerência do universo que estou a construir e com aquilo que quero realmente dizer enquanto artista.
Num período em que muitos artistas optam por lançar apenas singles, o que te motivou a apostar no formato álbum? Ainda acreditas que um disco pode contar uma história que vai além das canções individualmente?
Sim, sem dúvida. Um disco contém uma história que pode ser muito mais abrangente e rica quando pensada como um todo, quase como se fosse uma longa-metragem. Apesar de hoje existir uma maior tendência para o consumo de singles, acredito que a mensagem e a narrativa continuam a ganhar uma dimensão diferente quando apresentadas num formato álbum.
Um disco permite criar um universo mais completo, dar contexto às canções e aprofundar a identidade do artista de uma forma que os singles, por si só, nem sempre conseguem transmitir.
Inicialmente, também considerei a possibilidade de lançar apenas singles. No entanto, ao longo do processo, percebi que este conjunto de músicas fazia mais sentido enquanto obra completa. Era importante para mim consolidar esta fase e afirmar uma sonoridade própria, que se revelasse de forma mais consistente ao longo do álbum.
Ainda assim, vejo os singles como uma ferramenta muito importante. Permitem uma ligação mais direta com o público, abrem espaço para experimentação e ajudam também a mapear diferentes caminhos dentro do percurso artístico. No fundo, ambos os formatos se complementam.
As letras continuam a ser um elemento fundamental da tua música. Que temas ou inquietações procuraste explorar neste novo trabalho?
Tanto nas versões como nos originais, penso que há sempre uma mensagem que, de certa forma, também me é dirigida a mim próprio.
As letras são um elemento fundamental, porque transportam a mensagem de forma mais direta e permitem dar forma às ideias e emoções que quero explorar. Ainda assim, vejo a música como um equilíbrio entre letra e sonoridade. A música tem de conseguir transportar-nos para o lugar certo, criar a atmosfera e a emoção, e a letra surge como uma espécie de reforço dessa viagem — quase como a cereja no topo do bolo.
No fundo, não vejo as letras apenas como comunicação para o exterior, mas também como um diálogo interno, uma forma de reflexão pessoal que acaba por ganhar outra dimensão quando chega ao público.
A produção e os arranjos revelam uma determinada direção sonora. Houve alguma preocupação em modernizar o som ou o objetivo foi manter a essência que os teus ouvintes já identificam contigo?
Fiz sobretudo o que senti no momento da produção. Não tenho uma preocupação em “modernizar” o som ou em repetir fórmulas anteriores. O que me interessa é a intenção e a forma como a música comunica a mensagem de forma direta, sem grandes rodeios.
Normalmente, o meu processo começa de forma bastante intensa. Costumo adicionar muitos elementos, harmonias, frases e melodias. Mas chega sempre um ponto em que sinto que já disse tudo o que tinha para dizer nessa abordagem.
A partir daí, faço o caminho inverso. Deixo a música respirar durante algum tempo e começo a retirar tudo o que não é essencial. O desafio passa a ser encontrar o equilíbrio entre espaço, emoção e intensidade, sem perder a essência da ideia inicial.
No fundo, procuro evoluir na produção sem me repetir, evitando caminhos óbvios e guiando-me mais pelo que sinto do que por qualquer tendência ou regra pré-definida.
Fazes parte da Confraria do Rock Tuga, uma comunidade que tem contribuído para divulgar e fortalecer o rock nacional. Qual consideras ser o papel deste tipo de iniciativas na promoção dos artistas portugueses e na criação de uma cena musical mais unida?
A Confraria do Rock Tuga é uma iniciativa muito importante, sobretudo porque ajuda a unir pessoas e projetos que partilham o mesmo objetivo: fazer crescer a música e o rock em Portugal.
Muitas vezes, e não por má intenção, existe uma tendência para se ver os outros projetos como concorrência em vez de aliados. É precisamente aqui que este tipo de iniciativas faz a diferença, ao criar pontes, promover sinergias e incentivar a entreajuda.
No fundo, trata-se de construir uma comunidade mais unida, onde há troca de ideias, colaboração e apoio mútuo, o que acaba por fortalecer toda a cena musical.
O rock já foi dominante nas rádios e nos grandes meios de comunicação, mas hoje ocupa um espaço diferente. Como vês o estado atual do rock em Portugal? Está a atravessar uma fase difícil ou apenas uma transformação?
Vejo o rock em Portugal a atravessar mais uma fase de transformação do que propriamente uma fase difícil. É um processo natural dentro da evolução da música e dos meios de consumo.
Temos de nos saber adaptar a esta mudança. Se olharmos para as vantagens que a tecnologia e as novas plataformas trouxeram, acredito que há muito mais a ganhar do que a perder. Hoje existe mais acesso, mais ferramentas e mais possibilidades de chegar ao público.
O que é necessário, talvez, é ajustar um pouco o nosso “chip” e perceber como podemos continuar a fazer chegar a música às pessoas dentro desta nova realidade, sem perder a essência do que é o rock.
Muitos defendem que o rock continua vivo, mas que se tornou mais nichado. Concordas com essa ideia? Onde sentes que estão atualmente os principais focos de resistência e crescimento do género?
Concordo. O rock continua vivo, muitas vezes transformado em novas abordagens e arranjos, mas mantendo sempre o seu espírito. Hoje em dia, com o “bombardeamento” constante de informação e música no mercado, tudo se torna mais competitivo e mais difícil de chegar ao público certo.
As rádios continuam a ter um papel essencial na divulgação, mas também sinto que existem desafios importantes, como a falta de financiamento no setor e a dificuldade em criar estratégias de exportação consistentes para a música portuguesa.
Acredito que os principais focos de resistência e crescimento do género passam precisamente por aí: pela capacidade de adaptação, pelo apoio às estruturas de divulgação e por uma maior aposta na internacionalização.
No fundo, o rock não desapareceu — está apenas a evoluir dentro de um novo contexto.
Que papel podem as novas gerações de músicos desempenhar na renovação do rock português e que conselhos lhes darias a partir da tua experiência?
A nova geração de músicos tem uma qualidade incrível e, hoje em dia, com o acesso à informação e às ferramentas disponíveis, existem muito mais possibilidades de construir um percurso sólido na música.
Eu deixaria sobretudo três conselhos, não apenas para quem faz rock, mas para todos os artistas que trabalham fora do mainstream.
O primeiro é a persistência. Este continua a ser um caminho exigente e que requer tempo, consistência e resistência.
O segundo é a consciência de que não é um mercado fácil. É importante saber onde estamos e manter os pés bem assentes na realidade, sem ilusões sobre a rapidez dos resultados.
O terceiro, e talvez o mais importante, é desenvolver uma mentalidade de exportação. Mesmo quando se trabalha para nichos ou para cenas mais específicas, a verdade é que hoje estamos potencialmente a comunicar para um público global. Pensar dessa forma abre novas oportunidades e dá mais liberdade para continuar a criar aquilo que realmente queremos fazer.
Num panorama musical marcado por algoritmos, redes sociais e consumo rápido de conteúdos, que desafios enfrenta hoje um artista de rock para chegar ao público?
O panorama musical, no nosso mercado, com ou sem algoritmos e redes sociais, nunca foi fácil. É um contexto exigente e em constante mudança, onde tudo é consumido e produzido a grande velocidade.
Acredito que o principal desafio passa por saber adaptar-nos a essa realidade, sem perder a identidade. É importante sermos consistentes, encontrar formas de comunicar a nossa arte e, ao mesmo tempo, criar ligação com o público de maneira genuína.
No fundo, trata-se de equilibrar a rapidez do mundo atual com a necessidade de dar espaço à música para respirar e chegar às pessoas da forma certa.
Depois do lançamento deste álbum, o que gostarias que as pessoas levassem consigo após a audição completa do disco?
Gostava que o público se sentisse inspirado e motivado. O disco tem muito caos, mas também muita esperança.
Essa esperança aparece quase como uma luz ou um caminho. Muitas vezes precisamos de passar pelo caos para perceber que afinal estamos no sítio certo e ganhar novo fôlego para sermos verdadeiramente nós próprios.
E olhando para o futuro, que objetivos ou sonhos musicais continuas a querer concretizar nesta fase da tua carreira?
Neste momento, a prioridade é explorar este disco ao vivo e consolidar da melhor forma possível. Quero que estas músicas ganhem vida em palco, porque é aí que elas realmente se completam e se transformam.
Ao mesmo tempo, vejo este período como uma oportunidade para aprofundar ainda mais a identidade que estou a construir e perceber como ela evolui em contacto com o público. O palco acaba por ser um espaço de teste, mas também de descoberta.
Para o futuro, o objetivo passa por continuar a criar com liberdade, sem perder esta ligação mais consciente ao que estou a fazer, e ir expandindo o meu universo musical de forma natural, sem pressas, mas com intenção.
"Chave de Afetos" transmite uma mensagem muito positiva sobre abertura emocional e relações humanas. Como nasceu esta canção e que experiências pessoais estiveram na sua origem?
Esta canção, como tantas outras que crio, nasce da fronteira entre a minha experiência vivida e o território da imaginação. Escrever é para mim essa liberdade, a capacidade de transformar tanto a realidade do dia a dia como histórias puramente imaginárias em música, dando asas a tudo o que sinto, observo ou antecipo na minha vida.
Depois do lançamento do single, chega agora o videoclipe. De que forma o conceito visual complementa a mensagem da música?
Nesta canção procurei transmitir uma mensagem forte e reflexiva, mas acima de tudo luminosa. A música acompanha a jornada de alguém que entra numa casa vazia e cinzenta. Contudo, à medida que a presença feminina se faz sentir, esse espaço ganha vida e cor. É a materialização da 'chave de afetos', é aquele elo que abre o coração e nos recorda como as pessoas certas trazem propósito e claridade aos nossos dias.
A participação da atriz Ana Paula Lopes traz uma dimensão narrativa especial ao vídeo. Como surgiu esta colaboração e o que acrescentou ao projeto?
Contar com a Ana Paula neste projeto foi um privilégio duplo. Falamos de uma atriz com um percurso brilhante em Portugal e além-fronteiras, mas também de alguém com quem partilho memórias desde a minha infância. Na hora de decidir o elenco com a Intercut Films, percebi que o seu enorme talento, somado à nossa amizade até aos dias de hoje, traria uma autenticidade única, entrega e mágica a esta história.
Vivemos numa época marcada por relações cada vez mais digitais e imediatas. Consideras que "Chave de Afetos" é também um convite a recuperar a proximidade e a empatia nas relações humanas?
Sem dúvida. A 'chave de afetos' é um conceito profundamente íntimo, feito para ressoar em cada pessoa de uma forma única. Ao deixar essa interpretação aberta, a música transforma-se num espelho das vivências de quem a ouve, reforçando os laços de proximidade, de entrega e daquela autenticidade que só o amor e a partilha real conseguem trazer à vida de cada pessoa.
Ao longo de quase 30 anos de carreira, tens passado por diferentes projetos e bandas. O que distingue o projeto de autor FIPOS das restantes experiências musicais que tiveste até hoje?
Para mim, o processo a solo é um espaço de honestidade absoluta e sem filtros, onde cada detalhe carrega a minha identidade mais pura. É especial por ser um manifesto puramente individual e autêntico de mim mesmo. Já uma banda exige desprendimento e partilha. O foco passa a ser a partilha de visões, a cumplicidade e a criação de uma identidade que já não é nossa, mas sim do coletivo. São dois caminhos distintos, mas ambos necessários à minha expressão como artista.
O rock continua a ser uma das tuas principais referências, mas este novo tema apresenta uma abordagem mais pop e luminosa. Como descreves a evolução da tua sonoridade nos últimos anos?
Este é o meu tema mais comercial, assente numa matriz funk rock muito acessível e que representa apenas uma das minhas camadas criativas. Em palco e o que pretendo apresentar no meu projeto FIPOS, vai transfigurar-se pelo que os concertos serão ancorados na energia pura do rock, desenhados para guiar o público numa viagem de contrastes, onde cada canção dita um estado de espírito, um sentimento ou uma reflexão diferente. Noto um crescimento claro na minha identidade sonora, um alinhamento cada vez maior com a minha visão artística. Sei exatamente para onde quero caminhar, e é esse mesmo foco que me faz reconhecer que o processo de evolução e exigência pessoal é contínuo.
Em 2022 conquistaste reconhecimento internacional com os Duques ao vencer o prémio de Melhor Performance Rock nos International Portuguese Music Awards. Que impacto teve essa distinção no teu percurso artístico?
Foi uma noite inesquecível que ficará para sempre na minha memória. Sinto que este reconhecimento trouxe uma enorme projeção, tanto para o projeto coletivo como para cada um de nós individualmente. Infelizmente com o tempo alguns elementos não souberam dar valor ao que foi atingido pelo que o projeto já não fazia sentido e cada um seguiu o seu caminho. Além de consolidar a visibilidade da banda na altura, foi o catalisador que nos abriu as portas para alguns dos principais festivais de renome na ilha de São Miguel.
Em 2024 fundaste a Black Orange Studio, um espaço dedicado à criação e produção musical. De que forma este projeto tem influenciado o teu processo criativo enquanto compositor e intérprete?
Este percurso define-se por três pilares: crescimento, consolidação e clareza estratégica. Sei bem o rumo que pretendo seguir e as parcerias que quero estabelecer. Ter um espaço de trabalho inteiramente meu, dedicado à criação e ao ensaio, é um catalisador fundamental. Ali não há prazos de aluguer nem ruídos externos, há apenas o terreno fértil que preciso para materializar as minhas ideias com verdade e autenticidade como artista, seja na criação, seja no tocar com banda.
Paralelamente ao projeto FIPOS, continuas ligado aos ORANGE 3. Como geres o equilíbrio entre o trabalho em banda e a expressão mais pessoal das tuas canções de autor?
A música exige disciplina e respeito, seja a liderar ou a partilhar. Na banda ou no meu projeto de autor, guio-me por planeamento, ambição e espírito de equipa. Faço isto desde os meus 14 anos: sei escutar, debater ideias, opinar, criar, além de criar um ambiente onde a criatividade flui em consonância e todos colhem os frutos. Em contrapartida, quando me foco na minha própria escrita, o método torna-se mais introspetivo. Dou-me ao tempo, invoco a autocrítica e planeio cada passo para que a simbiose entre a letra e a melodia resultem ao máximo, coladas à minha identidade.
"Chave de Afetos" marca uma nova etapa da tua carreira. O que pode o público esperar dos próximos meses? Há planos para novos singles, um EP ou até um álbum?
Sim, estou atualmente a trabalhar no meu primeiro EP de autor, intitulado 'Parte de Mim'. O lançamento está previsto para o primeiro trimestre de 2027, mas a estratégia passa por lançar um single com videoclipe depois do verão de 2026, de forma a aguçar a curiosidade e captar novos ouvintes para o que aí vem. Por agora, o foco está no estúdio e em trabalhar paralelamente com os músicos que me acompanham. O tempo trará excelentes novidades, espero!
Recentemente integraste a Confraria do Rock Tuga. Qual a tua opinião sobre este projeto e porque decidiste juntar-te a este coletivo de bandas de rock nacional?
Este é um projeto crucial de união e integração. A máxima de que 'juntos somos mais fortes' ganha o seu verdadeiro significado nesta comunidade. O meu objetivo é aliar sinergias e estabelecer pontes de intercâmbio cultural, camaradagem e identidade musical. Queremos abrir portas a novas oportunidades em encontros dinâmicos, celebrando o talento e a resistência das bandas e dos artistas independentes que constroem a música de autor no nosso país.
O que te levou a criar "My Song By The River" e quando percebeste que este seria o teu álbum de estreia?
A maior parte das músicas do álbum surgiram há 5 anos atrás, numa fase bastante escura da minha vida. Não andava bem e era um pouco difícil explicar aquilo que sentia. As músicas acabaram por ser desabafos no meio de lágrimas. Nessa altura ia criar um EP, cujo nome era para ser exatamente “My Song By The River”, mas por causa dos mesmos problemas e uma crise artística, acabei por nunca continuar com a ideia. Foi em 2024, graças a uma ótima recuperação do meu estado mental e a companhia das pessoas certas, que me relembrei o que queria: música. Mais do que isso, dar voz à minha história, às minhas músicas, agora sem tanta dor mas sim esperança.
O álbum explora temas como trauma, pertença e identidade. Qual foi o maior desafio emocional ao escrever estas músicas?
Honestamente, voltar a sentir o que sentia quando as escrevi. O artista é um sofredor e gosta disso. Gosta de sentir e a dor faz-nos criativos na maior parte das vezes. Quando decidi que queria dar voz à minha voz do passado, deparei-me com um ser (eu) num espaço melhor e mais saudável. Então tive que remoer coisas antigas e voltar a meter-me nos meus sapatos. Lembro-me que em estúdio, quando ia gravar a voz, tinha receio de “não ouvir a mesma dor”. Com isso bebi um copo de vinho branco, desligámos quase todas as luzes e deu para viajar ao passado.
O título carrega uma metáfora forte. O que simboliza esse “rio” para ti?
Tão simples como “a vida”. Como referi, nessa altura eu estava mais para lá do que para cá e a vontade de viver era de todo inexistente. Alias, se me dissessem há 5 anos atrás onde estaria hoje não iria acreditar, pois não acharia possível conseguir vencer a dor que vivia. O titulo do álbum remete à música “my song by the river” que fala exatamente sobre desistir de viver. É todo um poema metafórico sobre suicídio, sobre o ver a vida a passar, eu a musica, a vida o rio.
Há uma ligação clara entre as sete faixas. Foi intencional criar um álbum com narrativa contínua?
Foi sim, quando escrevi as músicas não pensei propriamente nisso, era apenas a minha história no momento. Na altura em que criei o EP tinha todo um conceito que não modificou assim tanto com os anos. O EP acabava com dois singles que foram lançados apenas no YouTube em 2021 (Green Tea e Butterfly Lullaby) e era sobre o começar mal mas acabar bem. Neste caso, com a maturidade que fui ganhando , o álbum era mais uma nostalgia, um perdão a mim mesma e o ciclo da vida, tanto que o álbum começa comigo a cantar com 3 anos e acaba com uma música que escrevi no 100º aniversário do meu avo paterno, antes da morte dele. Quando vi o sentido inconsciente que dei ao álbum foi uma sensação de paz e de puro descanso.
A tua música tem uma atmosfera muito íntima. Como descreves o teu estilo a quem te ouve pela primeira vez?
Ui isso é uma pergunta bastante complexa. Nem eu sei, a verdade é que sempre tive muita ligação com o rock, tal como o pop. Tenho pais de gerações diferentes, o meu pai dos anos 50s e a minha mãe dos anos 70s, então o meu leque de músicas sempre foi bastante amplo. Desde o meu pai que me mostrou os clássicos do Blues ao Rock e a minha mãe que me deu um gosto não só pelo Pop como pelo Metal. Tenho-me posto numa caixinha de Pop Rock Alternativo, pois acabei por ver-me mais nesse estilo, mas não quero de todo detalhar linhas daquilo que é a minha música pois não sei bem o dia de amanha.
De que forma a tua origem ibérica influencia a tua identidade artística?
O não estar tão agarrada a ser algo a 100%, não sei bem explicar mas quando se nasce com “duas identidades” é como se estivéssemos numa constante questão de quem sou e o que é ou não verdade. Com isso, vi-me como alguém que é mente aberta a tudo e acho que parte muito de aí.
Como costumas compor? Tens um processo definido ou depende do momento?
Depende muito do momento, mas como o meu instrumento principal é a voz, muitas vezes é a cantarolar, ou surge-me uma letra com uma certa melodia e gravo no meu telemóvel. Outras, foram com a guitarra ou o piano, estava a praticar, a descobrir novas melodias e do nada algo surgia. A verdade é que em nenhuma destas músicas obriguei-me a escrever, apenas surgiram. Parecia que algo saia de mim, que precisava mesmo de ter cá fora. Foi raro a vez que após isso mudei a melodia ou a letra.
No dia do lançamento deste álbum apresentaste-o num concerto acústico no Limas Bar. Como reagiu o público a este novo trabalho?
Gostaram bastante! Foi uma ótima noite, apareceu imensa gente e via um ambiente muito radiante à volta. Saí com o peito cheio de amor e vi que todos estavam com um sorriso na cara. Foi um concerto mais intimo, apenas com voz, guitarra (Daniel Chen) e uma pequena bateria (Vasco Lopes). Foi bastante divertido.
Que emoções queres despertar em quem ouve estas músicas pela primeira vez?
Sem duvida que é o conforto. Há uma frase que às vezes comentavam comigo quando estava mal que era “mas eu não me posso queixar porque tu estás numa situação pior”. Nunca acreditei nisso, eu estou mal e estou a passar pelo que tenho que passar inevitavelmente, isso não significa que os outros não tenham as suas dores. Por mais que o álbum seja muito sobre o meu “eu eu eu”, quero que as pessoas a interpretem como se fosse delas, a música é delas, é a oportunidade delas de desabafar. Sinto isso na musica “(the) People”. Ouçam a música deitados na cama, com umas luzes de presença pouco invasivas, deixem-se entrar pelos pads a dentro e descobrir a sensação agridoce que é estarmos sozinhos. Eu escrevi essa música com um vazio enorme, mas sempre que a ouço penso “fogo, mas estava ali comigo” e é uma sensação que quero que as pessoas sintam. O conforto na solidão, nas dores delas e, caramba, na força que temos todos dentro de nós.
O próximo concerto será na ARC em Faro. O que podes desvendar sobre esta data? Haverá alguma surpresa para o público?
Estou bastante feliz!! Para já porque manifestei três concertos em banda antes do final do ano e consegui, já por aí vai ser um concerto muito feliz. Mas posso desvendar que, para além de cantarmos o álbum, vou apresentar uma música nova, nunca antes ouvida por ninguém (sem ser a minha avó que ama essa música e tanto me chateou por torná-la realidade). Será uma versão em acústico, mas vai ser muito bonita.
Com datas já agendadas em Algés e Famalicão, sentes que este álbum está a abrir novas portas?
Espero que sim, não sou a pessoa mais positiva ou otimista na grande parte dos dias ahah (acho que dá para perceber com as 7 músicas tristes que ofereci ao público ahah), mas está me a dar gozo ver que o trabalho que tenho tido para me lançar e dar-me a conhecer está de facto a dar pequenos frutos. Muitas vezes tenho receio de não ser ninguém, por mais que tente, mas a verdade é que se for ver como estava e onde estou, não posso negar que as sementes estão a dar alguns frutos.
Já pensas no futuro ou preferes viver este ciclo antes de criar o próximo capítulo?
Sou pro a pensar no que aí vem e tenho muitos problemas em viver no presente. Portanto após alguma terapia consigo dizer: nos dois ahah... aproveito este álbum que, no fundo, é um álbum cheio de nostalgia e uma memória do que fui, mas já tenho ideias para o que quero trazer no futuro, nem que seja uma vaga ideia.
“Lua Vermelha” traz uma sonoridade intensa e cinematográfica. Qual foi o processo criativo por trás desta faixa - desde a ideia inicial até à gravação final?
“Lua Vermelha” nasceu de um impulso muito visceral, uma tentativa de transformar tensão emocional em som.
Durante o processo, quisemos manter essa sensação de instabilidade e libertação: camadas de guitarras em feedback, vozes que oscilam entre fragilidade e raiva, e uma produção que mistura o rock alternativo com elementos cinematográficos e dreamcore.
A gravação final foi pensada para capturar a energia crua do momento, sem polir demasiado o caos.
Vocês têm vindo a trabalhar em português recentemente. O que mudou no vosso processo criativo e na interação com o público ao cantar em português?
Cantar em português mudou tudo. A língua trouxe uma clareza emocional que sentimos faltar antes. Há uma proximidade quase física entre as palavras e o som. O português tem uma textura própria que encaixa bem no tipo de música alternativa pesada que fazemos.
O público também reage de forma diferente: há mais identificação, mais partilha, e uma ligação direta entre o que dizemos e o que sentimos. É um espelho sem filtros.
A estética visual é muito presente no vosso projeto - dreamcore, atmosferas visuais, elementos cinematográficos. Como criam essa imagem e que papel acham que a componente visual tem na música pesada alternativa?
A estética de CHOKEPOINT é uma extensão do som…tudo parte da mesma emoção. Trabalhamos com uma lógica multissensorial, em que cada imagem, cor ou glitch visual tem uma função narrativa.
O dreamcore e a estética digital ajudam-nos a criar uma espécie de universo paralelo, onde cada faixa é um fragmento de uma história maior.
Acreditamos que o visual é tão importante como o som: é o que transporta o público para dentro da experiência, algures entre o colapso e a catarse.
O single “Lua Vermelha” parece representar uma nova fase dos CHOKEPOINT. Que expectativas têm para este lançamento? Há concertos/colaborações planeadas ou outras surpresas que os fãs devem antecipar?
“Lua Vermelha” marca o início de uma nova narrativa dentro do nosso universo. É o primeiro sinal do ep conceptual, e funciona como um portal para esse novo ciclo.
Temos concertos planeados e algumas colaborações a ser preparadas. Queremos expandir o conceito para o palco e para experiências audiovisuais imersivas.
Mais do que expectativas, temos vontade de criar impacto. Este single é o primeiro glitch de um sistema emocional em reconstrução.
O vosso álbum conceptual dreamcore.exe já foi mencionado. Podem contar-nos um pouco mais sobre o conceito: o que significa “ficheiros emocionais corrompidos” e como isso se vai refletir nas músicas que vêm a seguir?
“dreamcore.exe” é uma exploração de memórias danificadas e emoções arquivadas. A ideia dos “ficheiros emocionais corrompidos” vem da sensação de reabrir partes de nós que foram esquecidas, distorcidas ou reprimidas.
Cada música representa um fragmento desse processo, uma tentativa de recuperar o que foi perdido entre o ruído.
O álbum mistura melodia e dissonância, beleza e glitch, criando um espaço onde o erro se torna arte.
Vocês vêm com background em “Sleep Therapy”. Que aprendizagens desse passado trouxeram para esta nova fase? Há algo que gostariam de fazer diferente agora?
Sleep Therapy foi o nosso laboratório. Aprendemos muito sobre composição, coesão e performance.
Com CHOKEPOINT quisemos libertar-nos de qualquer limitação estética. Trouxemos o que era essencial: a intensidade e o compromisso emocional.
Agora, há mais consciência de quem somos e do que queremos expressar. Menos perfeição, mais verdade.
Existem bandas emergentes ou projetos de música alternativa que admiram particularmente e que tenham inspirado alguma parte de “Lua Vermelha” ou do álbum que está para sair?
Inspiram-nos projetos que desafiam as fronteiras entre o som e o conceito, tanto dentro como fora do rock/metal.
Inspiram-nos as bandas alternativas portuguesas que têm (ou tinham) uma força criativa incrível (Linda Martini, More Than a Thousand), e também referências internacionais como Deftones, Loathe, SleepToken, Turnstile, entre outros que continuam a explorar o peso com emoção.
Mas mais do que influências diretas, inspira-nos a vida real. É daí que vem a energia.
O que vos motiva a manter a intensidade do metal alternativo num mercado onde nem sempre esse tipo de música recebe visibilidade? E como é que o vosso trabalho de comunicação e assessoria de imprensa contribui para ultrapassar esse obstáculo?
Porque essa intensidade existe. O metal alternativo e o rock pesado em português são formas de expressão que nos permitem lidar com o que é difícil de dizer de outro modo.
Não seguimos tendências, seguimos impulsos.
Acreditamos que há sempre espaço para a verdade. E é aí que o nosso trabalho de comunicação e identidade visual entra: mostrar que a música pesada pode ser emocional, estética e relevante.
Se tivessem de definir “Lua Vermelha” com apenas três palavras, quais seriam?
Colapso. Renascimento. Verdade.