Lito, este novo álbum representa mais um capítulo no teu percurso musical. Em que momento sentiste que as canções estavam prontas para ganhar forma como disco e o que distingue este trabalho dos anteriores?
Na realidade, não senti que as músicas estivessem completamente finalizadas. O que senti foi que tinha chegado o momento de lhes dar vida. Já as vinha a produzir há bastante tempo e algumas até tinham sido tocadas ao vivo. Estava sempre à procura de mais um detalhe, mais um ajuste, mais uma forma de as aperfeiçoar. Mas chegou uma altura em que percebi que tinha de as deixar seguir o seu próprio caminho.
De certa forma, precisava também de encerrar este ciclo. Apesar de ser um disco novo, estas músicas acompanham-me há vários anos e senti que estava na altura certa de as partilhar com o público.
Este álbum marca um virar de página no meu percurso. Foi aqui que consegui definir melhor a minha direção artística e consolidar uma sonoridade que me representa de forma mais clara. Talvez seja o trabalho onde me sinto mais próximo daquilo que realmente quero expressar como músico.
Quando olhas para o conjunto das músicas que compõem o álbum, existe um tema ou uma mensagem central que une todas as faixas?
Sim. Embora cada música tenha a sua própria identidade, sinto que "Find The Gold", que dá nome ao álbum e é também o single principal, acaba por ser o coração conceptual do disco. Pela energia, pela mensagem e pela forma direta como comunica, resume muito daquilo que quero transmitir neste trabalho.
Vivemos rodeados de ruído, expectativas e distrações. Ao longo da vida vamos criando defesas, máscaras e camadas para nos protegermos, mas muitas vezes acabamos por ficar presos dentro dessas mesmas estruturas. A certa altura percebemos que a maior prisão pode ser aquela que construímos para nós próprios.
"Find The Gold" fala precisamente dessa procura interior. Da necessidade de parar de procurar respostas fora de nós e começar a olhar mais para dentro. De encontrar o nosso próprio ouro, aquilo que nos torna únicos, autênticos e verdadeiros.
No fundo, é uma música sobre força interior, transformação e autenticidade. Sobre ter coragem para enfrentar quem somos, libertar-nos do que não nos serve e confiar mais em nós próprios.

Como diz a letra:
"Dig down deep inside your mind, and deal with yourself.
Be honest, formless, and be shapeless.
Empty your mind and be like water.
An original is worth more than a copy.
Go and find the gold."
O processo de criação de um álbum é sempre uma viagem. Quais foram os maiores desafios e aprendizagens durante a composição e gravação deste trabalho?
Sim, fazer um álbum é sempre uma viagem muito interessante. Sabemos onde começamos, mas raramente sabemos exatamente onde vamos acabar. Para mim, é precisamente esse mistério e essa abertura ao inesperado que tornam o processo tão fascinante.
Olhando para trás, sei que não foi um caminho fácil. Houve muitos desafios, mudanças de direção, decisões estratégicas e momentos em que tive de regravar partes inteiras ou abandonar ideias que, à partida, parecia que iam funcionar. Uma das maiores aprendizagens foi desenvolver flexibilidade e perceber que nem sempre o primeiro plano é o melhor plano.
Também aprendi a gerir a ansiedade. Quando estamos muito envolvidos num projeto, é fácil querer controlar tudo e encontrar respostas imediatas. Mas muitas vezes o processo criativo exige tempo, paciência e confiança.
Se tivesse de resumir este percurso numa imagem, diria que foi como atravessar um deserto. Há momentos em que não vemos claramente o destino e em que tudo à nossa volta parece indicar que estamos no caminho errado. Mesmo com a melhor das intenções, as pessoas que nos rodeiam podem ter opiniões diferentes ou sugerir outras direções. O desafio está em continuar a caminhar, confiar na nossa intuição e mantermo-nos fiéis à visão que temos para o trabalho.
No fundo, a maior aprendizagem foi a adaptação. Encontrar formas de fazer acontecer, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis, inventar caminhos alternativos e seguir em frente sem perder a essência daquilo que quero transmitir. Foi isso que este álbum me ensinou.
Ao longo da tua carreira tens construído uma identidade muito própria dentro do rock português. De que forma sentes que a tua escrita e a tua visão artística evoluíram ao longo dos anos?
Acho que a minha escrita e a minha visão artística têm vindo a evoluir de uma forma muito orgânica, quase inevitável, ao longo dos anos.
Numa fase inicial, tudo era mais instintivo. Havia uma grande necessidade de expressão, de libertar ideias e emoções sem grande filtro. A prioridade era criar e fazer acontecer, mesmo que isso significasse ser mais cru ou menos consciente da forma.
Com o tempo, comecei a ganhar mais consciência do que estava a fazer. Passei a ouvir mais o que as músicas me pediam, a pensar mais na estrutura, na mensagem e no impacto emocional. O caminho para a escrita deixou de ser apenas um impulso e passou também a ser uma forma de reflexão.
Hoje sinto que existe um equilíbrio maior entre instinto e intenção. Continuo a valorizar muito a espontaneidade, mas há também uma maior preocupação com a identidade, com a coerência do universo que estou a construir e com aquilo que quero realmente dizer enquanto artista.
Num período em que muitos artistas optam por lançar apenas singles, o que te motivou a apostar no formato álbum? Ainda acreditas que um disco pode contar uma história que vai além das canções individualmente?
Sim, sem dúvida. Um disco contém uma história que pode ser muito mais abrangente e rica quando pensada como um todo, quase como se fosse uma longa-metragem. Apesar de hoje existir uma maior tendência para o consumo de singles, acredito que a mensagem e a narrativa continuam a ganhar uma dimensão diferente quando apresentadas num formato álbum.
Um disco permite criar um universo mais completo, dar contexto às canções e aprofundar a identidade do artista de uma forma que os singles, por si só, nem sempre conseguem transmitir.
Inicialmente, também considerei a possibilidade de lançar apenas singles. No entanto, ao longo do processo, percebi que este conjunto de músicas fazia mais sentido enquanto obra completa. Era importante para mim consolidar esta fase e afirmar uma sonoridade própria, que se revelasse de forma mais consistente ao longo do álbum.
Ainda assim, vejo os singles como uma ferramenta muito importante. Permitem uma ligação mais direta com o público, abrem espaço para experimentação e ajudam também a mapear diferentes caminhos dentro do percurso artístico. No fundo, ambos os formatos se complementam.

As letras continuam a ser um elemento fundamental da tua música. Que temas ou inquietações procuraste explorar neste novo trabalho?
Tanto nas versões como nos originais, penso que há sempre uma mensagem que, de certa forma, também me é dirigida a mim próprio.
As letras são um elemento fundamental, porque transportam a mensagem de forma mais direta e permitem dar forma às ideias e emoções que quero explorar. Ainda assim, vejo a música como um equilíbrio entre letra e sonoridade. A música tem de conseguir transportar-nos para o lugar certo, criar a atmosfera e a emoção, e a letra surge como uma espécie de reforço dessa viagem — quase como a cereja no topo do bolo.
No fundo, não vejo as letras apenas como comunicação para o exterior, mas também como um diálogo interno, uma forma de reflexão pessoal que acaba por ganhar outra dimensão quando chega ao público.
A produção e os arranjos revelam uma determinada direção sonora. Houve alguma preocupação em modernizar o som ou o objetivo foi manter a essência que os teus ouvintes já identificam contigo?
Fiz sobretudo o que senti no momento da produção. Não tenho uma preocupação em “modernizar” o som ou em repetir fórmulas anteriores. O que me interessa é a intenção e a forma como a música comunica a mensagem de forma direta, sem grandes rodeios.
Normalmente, o meu processo começa de forma bastante intensa. Costumo adicionar muitos elementos, harmonias, frases e melodias. Mas chega sempre um ponto em que sinto que já disse tudo o que tinha para dizer nessa abordagem.
A partir daí, faço o caminho inverso. Deixo a música respirar durante algum tempo e começo a retirar tudo o que não é essencial. O desafio passa a ser encontrar o equilíbrio entre espaço, emoção e intensidade, sem perder a essência da ideia inicial.
No fundo, procuro evoluir na produção sem me repetir, evitando caminhos óbvios e guiando-me mais pelo que sinto do que por qualquer tendência ou regra pré-definida.
Fazes parte da Confraria do Rock Tuga, uma comunidade que tem contribuído para divulgar e fortalecer o rock nacional. Qual consideras ser o papel deste tipo de iniciativas na promoção dos artistas portugueses e na criação de uma cena musical mais unida?
A Confraria do Rock Tuga é uma iniciativa muito importante, sobretudo porque ajuda a unir pessoas e projetos que partilham o mesmo objetivo: fazer crescer a música e o rock em Portugal.
Muitas vezes, e não por má intenção, existe uma tendência para se ver os outros projetos como concorrência em vez de aliados. É precisamente aqui que este tipo de iniciativas faz a diferença, ao criar pontes, promover sinergias e incentivar a entreajuda.
No fundo, trata-se de construir uma comunidade mais unida, onde há troca de ideias, colaboração e apoio mútuo, o que acaba por fortalecer toda a cena musical.
O rock já foi dominante nas rádios e nos grandes meios de comunicação, mas hoje ocupa um espaço diferente. Como vês o estado atual do rock em Portugal? Está a atravessar uma fase difícil ou apenas uma transformação?
Vejo o rock em Portugal a atravessar mais uma fase de transformação do que propriamente uma fase difícil. É um processo natural dentro da evolução da música e dos meios de consumo.
Temos de nos saber adaptar a esta mudança. Se olharmos para as vantagens que a tecnologia e as novas plataformas trouxeram, acredito que há muito mais a ganhar do que a perder. Hoje existe mais acesso, mais ferramentas e mais possibilidades de chegar ao público.
O que é necessário, talvez, é ajustar um pouco o nosso “chip” e perceber como podemos continuar a fazer chegar a música às pessoas dentro desta nova realidade, sem perder a essência do que é o rock.
Muitos defendem que o rock continua vivo, mas que se tornou mais nichado. Concordas com essa ideia? Onde sentes que estão atualmente os principais focos de resistência e crescimento do género?
Concordo. O rock continua vivo, muitas vezes transformado em novas abordagens e arranjos, mas mantendo sempre o seu espírito. Hoje em dia, com o “bombardeamento” constante de informação e música no mercado, tudo se torna mais competitivo e mais difícil de chegar ao público certo.
As rádios continuam a ter um papel essencial na divulgação, mas também sinto que existem desafios importantes, como a falta de financiamento no setor e a dificuldade em criar estratégias de exportação consistentes para a música portuguesa.
Acredito que os principais focos de resistência e crescimento do género passam precisamente por aí: pela capacidade de adaptação, pelo apoio às estruturas de divulgação e por uma maior aposta na internacionalização. No fundo, o rock não desapareceu — está apenas a evoluir dentro de um novo contexto.

Que papel podem as novas gerações de músicos desempenhar na renovação do rock português e que conselhos lhes darias a partir da tua experiência?
A nova geração de músicos tem uma qualidade incrível e, hoje em dia, com o acesso à informação e às ferramentas disponíveis, existem muito mais possibilidades de construir um percurso sólido na música.
Eu deixaria sobretudo três conselhos, não apenas para quem faz rock, mas para todos os artistas que trabalham fora do mainstream.
O primeiro é a persistência. Este continua a ser um caminho exigente e que requer tempo, consistência e resistência.
O segundo é a consciência de que não é um mercado fácil. É importante saber onde estamos e manter os pés bem assentes na realidade, sem ilusões sobre a rapidez dos resultados.
O terceiro, e talvez o mais importante, é desenvolver uma mentalidade de exportação. Mesmo quando se trabalha para nichos ou para cenas mais específicas, a verdade é que hoje estamos potencialmente a comunicar para um público global. Pensar dessa forma abre novas oportunidades e dá mais liberdade para continuar a criar aquilo que realmente queremos fazer.
Num panorama musical marcado por algoritmos, redes sociais e consumo rápido de conteúdos, que desafios enfrenta hoje um artista de rock para chegar ao público?
O panorama musical, no nosso mercado, com ou sem algoritmos e redes sociais, nunca foi fácil. É um contexto exigente e em constante mudança, onde tudo é consumido e produzido a grande velocidade.
Acredito que o principal desafio passa por saber adaptar-nos a essa realidade, sem perder a identidade. É importante sermos consistentes, encontrar formas de comunicar a nossa arte e, ao mesmo tempo, criar ligação com o público de maneira genuína.
No fundo, trata-se de equilibrar a rapidez do mundo atual com a necessidade de dar espaço à música para respirar e chegar às pessoas da forma certa.
Depois do lançamento deste álbum, o que gostarias que as pessoas levassem consigo após a audição completa do disco?
Gostava que o público se sentisse inspirado e motivado. O disco tem muito caos, mas também muita esperança.
Essa esperança aparece quase como uma luz ou um caminho. Muitas vezes precisamos de passar pelo caos para perceber que afinal estamos no sítio certo e ganhar novo fôlego para sermos verdadeiramente nós próprios.
E olhando para o futuro, que objetivos ou sonhos musicais continuas a querer concretizar nesta fase da tua carreira?
Neste momento, a prioridade é explorar este disco ao vivo e consolidar da melhor forma possível. Quero que estas músicas ganhem vida em palco, porque é aí que elas realmente se completam e se transformam.
Ao mesmo tempo, vejo este período como uma oportunidade para aprofundar ainda mais a identidade que estou a construir e perceber como ela evolui em contacto com o público. O palco acaba por ser um espaço de teste, mas também de descoberta.
Para o futuro, o objetivo passa por continuar a criar com liberdade, sem perder esta ligação mais consciente ao que estou a fazer, e ir expandindo o meu universo musical de forma natural, sem pressas, mas com intenção.
08-06-2026