ZÉ RUI (DIXIT)

Zé Rui, "Madrugar em Gaza" é uma das canções mais duras e emotivas dos Dixit dos últimos anos. Em que momento sentiste que era necessário transformar esta realidade numa canção?

Sempre fez parte do nosso ADN escrever sobre o que importa e denunciar a falta de humanidade que ainda existe neste planeta. Para nós, é sempre urgente dar voz a aquilo que não tem lugar numa sociedade que devia ser mais justa e humana.

A personagem Samir representa milhares de crianças apanhadas no meio da guerra. Como construíste esta narrativa e que importância teve dar um rosto humano a uma tragédia tantas vezes reduzida a números?

Esta é uma história bem real. Infelizmente, milhares de crianças vivem esta realidade, seja em Gaza ou em tantos outros locais do mundo. O Samir representa todas essas crianças a quem a infância é roubada.

A letra fala da perda da infância, dos sonhos e da esperança. Consideras que esse é o verdadeiro rosto de qualquer conflito armado, independentemente da geografia ou da ideologia envolvida?

Neste momento existem demasiados conflitos no mundo que não respeitam os direitos das crianças. É importante continuar a denunciar, seja no Congo, no Sudão, no Médio Oriente ou em tantos outros territórios devastados pela guerra.

Na divulgação do tema afirmam que "todo o genocídio começa quando se interrompem a vida, a esperança e o futuro das novas gerações". O que gostarias que o público refletisse ao ouvir esta mensagem?

É importante não nos deixarmos levar pela banalização do mal. Devemos lutar pela dignidade destes seres humanos, que tantas vezes são ignorados e deixados à mercê da crueldade.

O videoclipe estreou simbolicamente no Dia Mundial da Criança. Porque era importante associar este lançamento a uma data tão significativa?

Porque estas datas servem para nos lembrar do que realmente importa. Ainda assim, todos os dias são importantes quando falamos da defesa dos direitos de todas as crianças.

Ao longo de mais de três décadas, os Dixit nunca evitaram temas incómodos, desde a saúde mental à violência doméstica, passando pelo racismo e pela demagogia política. Sentem que a música continua a ter força para despertar consciências?

Nunca tivemos receio de abordar os temas que consideramos essenciais. Isso faz parte do espírito do rock: refletir sobre a sociedade e provocar pensamento crítico.

Vivemos numa época em que muitos artistas evitam posicionar-se sobre questões sociais ou políticas. Para ti, qual deve ser o papel de um músico perante as injustiças que testemunha?

Um músico é um arauto da dignidade, da consciência e da liberdade. A arte sempre teve esse papel: refletir a sociedade e defender a condição humana.

Os Dixit sempre colocaram a palavra no centro das canções. Quando escreves sobre temas tão sensíveis, sentes uma responsabilidade acrescida na forma como constróis a mensagem?

Não faz sentido, para nós, escrever sobre temas vazios. Essa foi sempre a génese dos Dixit: deixar uma mensagem em cada canção e transformar a música num espaço de reflexão e sentimento.

Depois de 33 anos de percurso, o que continua a alimentar esta necessidade de intervenção e de denúncia através do rock?

Fazer rock é continuar a lançar pedras no charco, a mover águas e a gritar aquilo que nos vai na alma.

O que esperas que aconteça depois de as pessoas ouvirem "Madrugar em Gaza"? Mais do que uma reação musical, que impacto gostarias que esta canção tivesse junto do público?

Se quem ouvir este tema não ficar indiferente, já atingimos o nosso objetivo. Queremos que esta canção lembre que não podemos ficar em silêncio perante o sofrimento das crianças no mundo.

Num mundo marcado por guerras, polarização e crescente indiferença, é mais difícil ou mais urgente fazer música de intervenção hoje do que quando os Dixit começaram?

A urgência é a mesma. Ao longo das últimas décadas, pouco mudou no que diz respeito aos direitos humanos, sobretudo dos mais inocentes, muitas vezes vítimas de interesses económicos e da propagação do ódio.

Que mensagem gostarias de deixar às crianças que, como o Samir da canção, crescem privadas da segurança, da liberdade e do direito a sonhar?

Gostaríamos de lhes transmitir esperança e a certeza de que ainda há quem lute por elas. Que possam brincar, estudar, ter uma refeição digna e viver em segurança, sem o trauma constante da guerra e da morte.

09-06-2026

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