FIPOS

"Chave de Afetos" transmite uma mensagem muito positiva sobre abertura emocional e relações humanas. Como nasceu esta canção e que experiências pessoais estiveram na sua origem?

Esta canção, como tantas outras que crio, nasce da fronteira entre a minha experiência vivida e o território da imaginação. Escrever é para mim essa liberdade, a capacidade de transformar tanto a realidade do dia a dia como histórias puramente imaginárias em música, dando asas a tudo o que sinto, observo ou antecipo na minha vida.

Depois do lançamento do single, chega agora o videoclipe. De que forma o conceito visual complementa a mensagem da música?

Nesta canção procurei transmitir uma mensagem forte e reflexiva, mas acima de tudo luminosa. A música acompanha a jornada de alguém que entra numa casa vazia e cinzenta. Contudo, à medida que a presença feminina se faz sentir, esse espaço ganha vida e cor. É a materialização da 'chave de afetos', é aquele elo que abre o coração e nos recorda como as pessoas certas trazem propósito e claridade aos nossos dias.

A participação da atriz Ana Paula Lopes traz uma dimensão narrativa especial ao vídeo. Como surgiu esta colaboração e o que acrescentou ao projeto?

Contar com a Ana Paula neste projeto foi um privilégio duplo. Falamos de uma atriz com um percurso brilhante em Portugal e além-fronteiras, mas também de alguém com quem partilho memórias desde a minha infância. Na hora de decidir o elenco com a Intercut Films, percebi que o seu enorme talento, somado à nossa amizade até aos dias de hoje, traria uma autenticidade única, entrega e mágica a esta história.

Vivemos numa época marcada por relações cada vez mais digitais e imediatas. Consideras que "Chave de Afetos" é também um convite a recuperar a proximidade e a empatia nas relações humanas?

Sem dúvida. A 'chave de afetos' é um conceito profundamente íntimo, feito para ressoar em cada pessoa de uma forma única. Ao deixar essa interpretação aberta, a música transforma-se num espelho das vivências de quem a ouve, reforçando os laços de proximidade, de entrega e daquela autenticidade que só o amor e a partilha real conseguem trazer à vida de cada pessoa.

Ao longo de quase 30 anos de carreira, tens passado por diferentes projetos e bandas. O que distingue o projeto de autor FIPOS das restantes experiências musicais que tiveste até hoje?

Para mim, o processo a solo é um espaço de honestidade absoluta e sem filtros, onde cada detalhe carrega a minha identidade mais pura. É especial por ser um manifesto puramente individual e autêntico de mim mesmo. Já uma banda exige desprendimento e partilha. O foco passa a ser a partilha de visões, a cumplicidade e a criação de uma identidade que já não é nossa, mas sim do coletivo. São dois caminhos distintos, mas ambos necessários à minha expressão como artista.

O rock continua a ser uma das tuas principais referências, mas este novo tema apresenta uma abordagem mais pop e luminosa. Como descreves a evolução da tua sonoridade nos últimos anos? 

Este é o meu tema mais comercial, assente numa matriz funk rock muito acessível e que representa apenas uma das minhas camadas criativas. Em palco e o que pretendo apresentar no meu projeto FIPOS, vai transfigurar-se pelo que os concertos serão ancorados na energia pura do rock, desenhados para guiar o público numa viagem de contrastes, onde cada canção dita um estado de espírito, um sentimento ou uma reflexão diferente. Noto um crescimento claro na minha identidade sonora, um alinhamento cada vez maior com a minha visão artística. Sei exatamente para onde quero caminhar, e é esse mesmo foco que me faz reconhecer que o processo de evolução e exigência pessoal é contínuo.

Em 2022 conquistaste reconhecimento internacional com os Duques ao vencer o prémio de Melhor Performance Rock nos International Portuguese Music Awards. Que impacto teve essa distinção no teu percurso artístico?

Foi uma noite inesquecível que ficará para sempre na minha memória. Sinto que este reconhecimento trouxe uma enorme projeção, tanto para o projeto coletivo como para cada um de nós individualmente. Infelizmente com o tempo alguns elementos não souberam dar valor ao que foi atingido pelo que o projeto já não fazia sentido e cada um seguiu o seu caminho. Além de consolidar a visibilidade da banda na altura, foi o catalisador que nos abriu as portas para alguns dos principais festivais de renome na ilha de São Miguel.

Em 2024 fundaste a Black Orange Studio, um espaço dedicado à criação e produção musical. De que forma este projeto tem influenciado o teu processo criativo enquanto compositor e intérprete?

Este percurso define-se por três pilares: crescimento, consolidação e clareza estratégica. Sei bem o rumo que pretendo seguir e as parcerias que quero estabelecer. Ter um espaço de trabalho inteiramente meu, dedicado à criação e ao ensaio, é um catalisador fundamental. Ali não há prazos de aluguer nem ruídos externos, há apenas o terreno fértil que preciso para materializar as minhas ideias com verdade e autenticidade como artista, seja na criação, seja no tocar com banda.

Paralelamente ao projeto FIPOS, continuas ligado aos ORANGE 3. Como geres o equilíbrio entre o trabalho em banda e a expressão mais pessoal das tuas canções de autor?

A música exige disciplina e respeito, seja a liderar ou a partilhar. Na banda ou no meu projeto de autor, guio-me por planeamento, ambição e espírito de equipa. Faço isto desde os meus 14 anos: sei escutar, debater ideias, opinar, criar, além de criar um ambiente onde a criatividade flui em consonância e todos colhem os frutos. Em contrapartida, quando me foco na minha própria escrita, o método torna-se mais introspetivo. Dou-me ao tempo, invoco a autocrítica e planeio cada passo para que a simbiose entre a letra e a melodia resultem ao máximo, coladas à minha identidade.

"Chave de Afetos" marca uma nova etapa da tua carreira. O que pode o público esperar dos próximos meses? Há planos para novos singles, um EP ou até um álbum?

Sim, estou atualmente a trabalhar no meu primeiro EP de autor, intitulado 'Parte de Mim'. O lançamento está previsto para o primeiro trimestre de 2027, mas a estratégia passa por lançar um single com videoclipe depois do verão de 2026, de forma a aguçar a curiosidade e captar novos ouvintes para o que aí vem. Por agora, o foco está no estúdio e em trabalhar paralelamente com os músicos que me acompanham. O tempo trará excelentes novidades, espero!

Recentemente integraste a Confraria do Rock Tuga. Qual a tua opinião sobre este projeto e porque decidiste juntar-te a este coletivo de bandas de rock nacional?

Este é um projeto crucial de união e integração. A máxima de que 'juntos somos mais fortes' ganha o seu verdadeiro significado nesta comunidade. O meu objetivo é aliar sinergias e estabelecer pontes de intercâmbio cultural, camaradagem e identidade musical. Queremos abrir portas a novas oportunidades em encontros dinâmicos, celebrando o talento e a resistência das bandas e dos artistas independentes que constroem a música de autor no nosso país.

03-06-2026

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