A Selvajaria de Platão apresenta-se como um trabalho conceptual com uma narrativa contínua. Em que momento perceberam que este conjunto de músicas precisava de ser contado como uma história e não apenas como uma coleção de canções?
Os nossos concertos são bastante teatrais, pelo que pensámos em passar isso para o EP que gravámos. Foi uma consequência natural do ethos dos concertos. As canções não foram criadas com esse objetivo, mas pareceu-nos que poderiam ser usadas para servir um propósito narrativo maior.

O EP aborda a tensão entre a civilização e o regresso às origens mais primitivas do ser humano. O que representa, para vocês, essa "selvajaria" presente no título do disco?
Selvajaria é febre. É a nossa identidade e a ausência dela, simultaneamente, fecundando-se mutuamente.
Ao longo do trabalho encontramos referências à poesia, ao teatro e ao storytelling. Até que ponto os Prisão Platão se veem como contadores de histórias e não apenas como uma banda de rock?
Consideramo-nos tanto como sendo "apenas" uma banda de rock, um rótulo que nos parece tão bom como qualquer outro, como enquanto contadores de histórias. Não são exclusivos: somos uma banda de rock que gosta de contar histórias e de produzir narrativas.
Existe um protagonista ou sujeito narrativo que conduz toda a viagem de A Selvajaria de Platão? Como construíram essa personagem e a sua evolução ao longo do EP?
Existe... Mas fica para a interpretação do ouvinte. Nós temos a nossa versão do sujeito narrativo - os ouvintes terão as suas versões também. A sua evolução, como já referimos, surge do feliz acaso de conseguirmos ligar as peças deste disco e dar-lhes uma coesão narrativa.
Nos últimos anos tem surgido uma nova geração de bandas portuguesas que aposta em conceitos fortes, universos próprios e abordagens mais artísticas à música. Sentem-se parte desse movimento?
Sim. Provavelmente, mais parte da ideia do movimento do que propriamente do movimento em si, mas gostamos da ideia de sermos incluídos nesse grupo emergente.
Projetos como os Unsafe Space Garden, entre outros nomes do underground nacional, têm ajudado a mostrar que o público está cada vez mais disponível para experiências que vão além da simples canção. Porque acreditam que esta vertente mais conceptual tem ganho espaço em Portugal?
Porque sobra pouca coisa em Portugal, não é? As pessoas estão cada vez mais fartas do superficial, e, felizmente, já não têm de procurar muito para encontrar diamantes - Femme Falafel, Marquise, os próprios Unsafe Space Garden... São todos projetos que já têm uma grande exposição. É bom de se ver.
A teatralidade parece estar presente não só nas letras, mas também na forma como imaginam as músicas. Como é que essa dimensão performativa influencia os vossos concertos?
Profundamente. A performance faz parte de qualquer músico que apresenta a sua arte num live setting, claro, mas nós tentamos sempre introduzir algum teatro. A base do concerto é sempre essa - como inserir a dimensão teatral nestes 40/50 minutos.
A estética pós-punk e new wave dos anos 80 é uma influência assumida. O que encontraram nessas sonoridades que continua a fazer sentido para retratar inquietações contemporâneas?
É a dessatisfação pós-moderna que lá encontramos. Nunca passou, nunca mudou.
Há uma crítica evidente a diferentes formas de escravatura e à frustração das expectativas criadas pela sociedade atual. Consideram que o rock português tem perdido alguma capacidade de intervenção ou continua a ser um espaço privilegiado para questionar o mundo?
Não concordamos que perdeu a capacidade de intervenção, de todo. A música sempre será sempre arma e união. Para quem procura, haverão sempre bandas, artistas, cantautores, que dão perguntas, dão respostas, que dão subsistência aos que precisarem e abrigo aos que não o têm.

"Como o Mar Bate na Rocha" surge como um dos momentos mais emotivos do EP. Como conseguiram equilibrar a dimensão íntima da canção com a narrativa mais ampla do disco?
Bom... É o single, tinha de lá estar. Mas faz sentido, pelo menos da nossa ótica, com a história que queremos contar. É o momento decisivo para a transformação do sujeito poético.
A faixa final, "De Volta às Origens (Selvajaria)", funciona quase como uma catarse. Sentem que esse momento representa também uma libertação artística da própria banda?
Sem dúvida. Especialmente quando tocada ao vivo. É sem dúvida uma injeção de adrenalina em todos nós, no público. A atmosfera muda. É uma experiência, e uma bastante boa.
Numa era dominada por conteúdos rápidos e consumo imediato, lançar um EP conceptual pode parecer um ato de resistência. Foi uma escolha consciente desafiar a forma como as pessoas consomem música atualmente?
Não necessariamente. Estamos apenas a ser fiéis a nós mesmos, à música que queremos fazer, e ao formato em que a queremos apresentar. Talvez haja um toque de dissidência perante uma certa frustração com moldes rápidos de consumo atuais, mas, se de facto o há, é inconsciente e natural.
O underground português parece estar cada vez mais aberto à experimentação, cruzando música com artes visuais, performance, literatura e teatro. Como avaliam o momento atual da cena alternativa nacional?
Está excelente. Temos tocado com artistas fantásticos - Pangeia, Adoro Protocolo, Ordenado Mínimo, donaranha, e muitos outros - artistas altamente diversos e ecléticos, e não paramos de ficar maravilhados com o fervor presente na música que (podemos ter orgulho de dizer que) nos rodeia, e também colaboramos com artistas fantásticos em outras áreas, nomeadamente, visuais: x_papo, o nosso artista residente, o Coletivo Triciclo, que fez a capa do nosso EP, e o Rodrigo Zenha, um excelente fotógrafo que já nos acompanha há algum tempo.
Depois de A Selvajaria de Platão, qual é o próximo passo? Pretendem continuar a desenvolver este universo narrativo ou explorar novas histórias e personagens em futuros lançamentos?
É esse o objetivo. Novas histórias, novas personagens, mais músicas. O próximo passo é um LP, com, se tudo correr bem, uns três singles. Havemos de ver. Parece estar para breve, ou talvez nem tanto.
22-06-2026